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Dom Delgado e o “Patriarca do Juazeiro”

Foto do escritor: Aldemar Almeida
Aldemar Almeida
há 3 horas
3 min de leitura

Monsenhor João Medeiros Filho



Dom José de Medeiros Delgado sempre se revelou afável, sensato, acessível e ecumênico. Em 1942, denunciaram-no à Santa Sé por ter convidado dois evangélicos para lecionar no recém-inaugurado Ginásio Diocesano Seridoense. Em resposta tranquila afirmou: “Não havia outros mais capacitados. Convidei-os para ensinar biologia e inglês, não religião ou doutrina. Ademais, os líderes de amanhã, formados num educandário católico, deverão saber lidar, desde cedo, com as diferenças.” 

Foi pioneiro ao propor a reabilitação canônica de Padre Cícero Romão Batista. Em 1944, os bispos da Província Eclesiástica da Paraíba (Natal não era arquidiocese) deliberaram que os padres não batizassem crianças com o nome de Cícero. O prelado caicoense discordou. Em nome da colegialidade, procurou Dom Moisés Coelho, Arcebispo da Paraíba e assegurou-lhe que os sacerdotes de sua diocese seguiriam a orientação do episcopado, apesar de considerá-la desprovida de fundamentação teológica, canônica e pastoral. Para evitar atritos, ele administraria o sacramento a quem solicitasse o batismo, apondo o prenome proibido. Despediu-se do metropolita com palavras típicas de seu episcopado: “Sou o responsável diante de Deus pelo meu rebanho.” 

O rito batismal era em latim, que poucos entendiam. Assim, alguns padres, para não afrontar as diretrizes provinciais e os paroquianos, batizavam as crianças com nomes de santos. Quando pároco em Caicó, lidei com pedidos de retificação dos assentamentos batismais. O preconceito ia longe. O “Patriarca do Juazeiro” era devoto de Nossa Senhora das Dores, por isso havia sacerdotes que não benziam imagens da Virgem Dolorosa. Certa feita, Paulo Balá, confrade da ANRL, mostrou-me um quadro que pertenceu a sua mãe. No verso estava escrito: “o vigário recusou benzê-lo.”

Enquanto Arcebispo de Fortaleza, Dom Delgado intensificou os esforços pela reabilitação do “Santo do Cariri”. Trocou ideias com pensadores cristãos, dentre eles, Parsifal Barroso, Luís Sucupira, Monsenhor Azarias Sobreira e Tristão de Athayde. Em carta dirigida a este último sobre o assunto, em 12/4/1970, assim escreveu: “Estou empenhado em dar à passagem do centenário de ordenação sacerdotal do Padre Cícero (ocorrida em 30.11.1870) um brilho especial. Para tanto publiquei dois estudos.”

Irmã Annette Dumoulin, em “Padre Cícero, santo dos pobres, santo da Igreja” analisa os fatos ocorridos no sul do Ceará, apresentando uma síntese da reabilitação pela Santa Sé. Em 2006, Monsenhor Assis Pereira, do clero natalense, elaborou o processo de reabilitação, solicitando primeiramente a anulação da excomunhão “a divinis”. O zelo pastoral do “Patriarca do Juazeiro” em acolher especialmente os mais simples e sofridos, ouvindo e abençoando-os, constitui indubitavelmente um sinal da graça divina. Escreveu a religiosa belga: “Não adotou a teologia do medo. Ensinava com mansidão e ternura. Não julgava. Ouvia e perdoava, seguindo o Divino Mestre. Não se revoltou com incompreensões e punições, hoje reconhecidamente indevidas.” Afirma o apóstolo Tiago: “Feliz quem suporta a provação, receberá a coroa da vida, prometida por Deus aos que O amam” (Tg 1, 12).

O RN também foi próximo de Padre Cícero. Além da expressiva devoção dos potiguares, “Padim Ciço” foi colega no Seminário de Fortaleza de alguns de nossos presbíteros, inclusive do “Anjo de Natal”, Padre João Maria. Foi companheiro de ordenação do caicoense Sebastião Constantino de Medeiros, governador do bispado de Olinda, durante a prisão de Dom Vital. Na grande seca de 1877-1879, o “Patriarca” vendeu parte de seus bens, destinando uma porção para socorrer os famintos de nosso estado. Dom Delgado admirava a obediência e o amor de Padre Cícero à Igreja, denominando-o “Mártir da disciplina”. E dizia: “Se esse projeto é de origem humana, fracassará. Ao contrário, se vier de Deus não conseguireis destruí-lo” (At 5, 38).


 
 
 

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