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Influências sobre a cultura seridoense

  • Foto do escritor: Aldemar Almeida
    Aldemar Almeida
  • há 13 horas
  • 3 min de leitura

Padre João Medeiros Filho



Credita-se parte significativa do desenvolvimento cultural e intelectual do Seridó à influência dos flamengos, oriundos dos Países Baixos (Holanda), que no passado incluíam Bélgica, Luxemburgo e parte da França (século XVII). A região foi marcada também pela presença de jesuítas e padres diocesanos, provindos da Freguesia do Assú (séc. XVIII-XIX). Os primeiros legaram tradições e técnicas. Dentre elas, destacam-se os queijos. Segundo algumas fontes, sua primeira fabricação ocorreu entre Acari e Currais Novos, em 1596, antecedendo às queijarias mineiras. Os bordados seridoenses são uma herança cultural flamenga, oriunda de Bruges, capital da Flandres Ocidental. Os açudes e barragens seridoenses foram inspirados nos diques, construídos para defender o sul Holanda da invasão do mar.


No Seridó, o objetivo é armazenar água. Não há como ignorar nomes franceses de tantos cidadãos seridoenses: Descartes, Dinarte, Vergniaud, Arnaud, Lamartine, Vauban, Odilon, Morton, bem como Gastão e Bernardo aportuguesados. Ressalta-se o francesismo dos bordados e rendas: tricot, crochet, macramé, richelieu, renaissance (renascença), guipure e outros. Há quem atribua tais galicismos aos almanaques. É ignorar que a antiga Província de Bruges se estendia até Lille (França), tendo o francês como língua original. Bruges ainda é marcadamente francófona, apesar do neerlandês ser o idioma oficial da região. Muitos de seus habitantes vieram para o Nordeste brasileiro, quando da ocupação holandesa. Monges beneditinos fundaram naquela cidade um mosteiro, a fim de suscitar vocações religiosas para evangelizar o Brasil. Trata-se da Abadia de Santo André, que preparava jovens para a vida missionária. De lá, veio Dom Gérard Van Caloen, primeiro bispo da Prelazia de Boa Vista (RR). Este motivou a tese doutoral do historiador Jacques Jongmans, na Universidade de Louvain.


É inegável a inspiração flamenga na cultura seridoense. Entretanto, o Seridó potiguar conheceu outros agentes formadores de seu povo. Muito deve aos sacerdotes jesuítas, evangelizadores e colonizadores do interior potiguar. Esta presença na formação de nossa índole data dos séculos XVII-XVIII. Há que lembrar a importância do Colégio dos Jesuítas, de João Pessoa. De lá partiram para evangelizar o RN, fundando missões, aldeias e erigindo igrejas. Santo André de Soveral (mártir de Cunhaú) era um deles. Câmara Cascudo delineia os caminhos dos padres da Companhia de Jesus no RN: Arês (antiga São João Batista de Guaraíras), Extremoz (outrora São Miguel de Guajiru), Angicos (cujo nome primitivo era Curral dos Padres), Assú, Apodi e Jucurutu. Nessas localidades, além da catequese, transmitiram conhecimentos linguísticos e científicos. Incutiram nos assuenses o gosto por idiomas, poesia e literatura. Assú é berço da primeira Escola de Latim do RN. “Todo discípulo bem formado será como o mestre” (Lc 6, 40).


Assú foi um celeiro de vocações sacerdotais, inspiradas pela cultura latina que encontrava seu ápice na liturgia. Até pouco tempo, Padre Canindé manteve ali uma escola de preparação ao sacerdócio. A vida cristã sempre foi marcante naquela cidade potiguar. É o torrão natal da Beata Lindalva Justo. Da Freguesia de São João Batista (compreendendo, à época, Campo Grande e outras localidades) provêm vários presbíteros, destacando-se o Senador Guerra, seus sobrinhos Francisco Justino e José Modesto Pereira de Brito, Manuel José Fernandes, Francisco Adelino de Brito e Francisco Rafael Fernandes. Foram pastores e docentes no Seridó. Padre Guerra trouxe ainda para Caicó seu sobrinho Joaquim Apolinar de Brito (leigo), um dos maiores educadores caicoenses. Outros renomados assuenses, formadores da erudição seridoense (especialmente Caicó, Jucurutu e Florânia), foram Padres Amaro Théo Castor Brasil, Manoel Gonçalves Soares de Amorim e Idalino Fernandes de Souza. A presença de tantos sacerdotes de alto nível intelectual é um marco na formação dos seridoenses.

Deve-se ao Padre Guerra a anexação do atual Seridó potiguar ao RN, desligando-o da Paraíba. Vale lembrar que a Freguesia de Sant’Ana de Caicó foi desmembrada da Paróquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pombal (PB), em 1748. No tricentenário da criação da Freguesia do Assú, o Seridó é chamado a render homenagens à Igreja-mãe de várias gerações. Por ter sido a origem de tantas comunidades cristãs e civis, Assú merece ser diocese, possuindo sua Catedral. Na verdade, foi a cátedra de muitos ensinamentos cristãos e culturais para incontáveis norte-rio-grandenses. O apóstolo Paulo orienta: “Guardai cuidadosamente as tradições que vos transmitiram” (2Ts 2,15).



 
 
 

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