Intransigência, desrespeito e violência

Monsenhor João Medeiros Filho

Não se assimilaram as lições do passado. Conquistas científicas e tecnológicas não têm conseguido fragilizar a propagação da violência. Ao contrário, em certos casos, aumentam e aprimoram suas formas. Preconceitos raciais, ideológicos, culturais e até religiosos são exemplos de irracionalidade e extremismo. Subestimando a Ética, a sociedade, apesar da tecnologia, padece de deploráveis retrocessos. Ela não tem dado novos passos em favor da dignidade humana. São imprescindíveis esforços para superar os descompassos sociais. Estes poderão nutrir de ódio grupos, eivados de narrativas deletérias. Tais segmentos consideram irretocáveis seus juízos sobre a vida social e política. É o que se pode inferir da recente campanha eleitoral. Vive-se sob o signo da agressividade, desconstrução e inverdade. Em lugar de uma aula de democracia, assiste-se a um espetáculo, que lembra as lutas no Coliseu romano. A força do cristianismo acabou com os gladiadores, no ano de 404. E hoje, qual é a atuação das igrejas para fechar os novos coliseus?
Tenta-se decretar o fim do diálogo. Partidos, grupos e movimentos “comunitários” constroem apenas monólogos. Acreditam-se detentores de poderes, que lhes garantem a propriedade exclusiva da verdade. Estabelecem o próprio ponto de vista critério único para definir o que é verdadeiro. Tomados por um espírito beligerante perdem o irrenunciável respeito ao semelhante. Constitui-se em amaurose ética, impedindo a adequada identificação de perspectivas divergentes, beirando a posturas totalitárias. Isso abala os alicerces do sentido inegociável da convivência humana. Divergências existem, mas não autorizam agressões e destruição do convívio social.
Há de se investir muito no culto do respeito à vida, superando polarizações. Não raro, militância é sinônimo de imposição. Deve-se cuidar para não tornar uma opinião como medida absoluta na interpretação da realidade. Apegar-se totalmente às próprias convicções leva ao radicalismo que se expressa em preconceitos e disputas fratricidas. Recomenda-se como antídoto para isso o cultivo da tolerância e do diálogo, destacando-se a preocupação com a paz. “Senhor fazei de mim instrumento de vossa paz”, rezava São Francisco de Assis. Jesus Cristo se deparou com essa cultura da inflexibilidade e monólogo. A Parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37) é metáfora da sensibilidade e respeito ao próximo.
Sem o compromisso com a paz, até pequenas divergências se agigantam, motivando ataques à dignidade humana. Chegou-se ao ponto de aceitar apenas aquilo que está de acordo com suas ideias, desconsiderando as demais concepções sobre a realidade. Para vencer o extremismo necessita-se cultivar no coração aquilo que gera a paz. É preciso permanecer vigilante para não se tornar depósito de ressentimentos, ocasionados por divergências ideológicas, inviabilizando a fraternidade. Deve-se contribuir para fazer da própria casa e cada comunidade territórios de solidariedade.
Não se derrota o Mal com a maldade, que conduz a rupturas, combates violentos e letais. O Bem somente é alcançado com a bondade, rompendo o círculo do ódio e ressentimento. A virulência dos radicalismos, motivada por interesses econômicos, sede de poder, vaidade e manutenção de zonas de conforto deverá ser enfrentada com a justiça do Evangelho. A promoção do humanismo integral e solidário apresenta-se como importante caminho nesse desafio. A civilização pode aproximar-se dessa situação, ao reconhecer a sacralidade de cada pessoa. Deus plasmou o ser humano, segundo a sua natureza: Unidade na Trindade. O apóstolo Paulo delineia esta realidade, quando fala dos carismas na Primeira Carta aos Coríntios (cap. 12). Importante lembrar a prece de despedida de Cristo a seus apóstolos: “Pai Santo, guarda-os do Mal. Que eles sejam um, como Eu e Tu” (Jo 17, 11).





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