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Nomes pitorescos de cidades brasileiras

  • Foto do escritor: Aldemar Almeida
    Aldemar Almeida
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Padre João Medeiros Filho



O Brasil é considerado um país continental, rico geográfica e culturalmente. Apesar do idioma único, há diversidade nos falares, expressões típicas e curiosa toponímia (com traços indígenas). O mapa é um inventário de palavras, despertando atenção, humor e poesia. Há cidades que lembram lendas, acontecimentos... Dentre centenas de topônimos, vale destacar pela originalidade: Varre-Sai (norte fluminense) e Passa e Fica (agreste potiguar). Contêm histórias, anedotas, folclore e o modo brasileiro de lidar com a linguagem oral, cheia de graça e criatividade. Situada na divisa com MG e ES, Varre-Sai é também conhecida pela produção de café. Sua denominação onomatopaica, surge de um fenômeno natural: os ventos fortes que varriam a região, antes da chegada de colonos italianos. Reza uma lenda que tropeiros, ao passarem pelo local, teriam dito que ali “o vento varria e saía levando tudo.” Daí a expressão “Varre-Sai”, batizando o lugarejo. “O vento gira para o sul e dobra para o norte, passando ao redor de tudo.” (Ecl 1,6).

A cerca de cem quilômetros de Natal, Passa e Fica é outro exemplo de imaginação popular aplicada à geografia. Fundada nos albores do século XX, a cidade montanhosa nasceu como ponto de parada para tangedores e comerciantes que atravessam o interior potiguar. Conta-se que no topo da serra havia uma pensão-bodega, onde os viajantes costumavam descansar. Certa vez, um deles teria dito ao dono: “Vou só passar.” O anfitrião respondeu: “Pois, passa e fica!” A expressão pegou. Quando o povoado virou município, o nome estava consolidado. Passa e Fica é síntese do acolhimento nordestino e humor de quem transforma uma conversa casual em identidade coletiva. Entretanto, o nome é paradoxal: passar e ficar são ações opostas. Mas, a linguagem popular é mestra em conciliar termos antagônicos. Em Passa e Fica, há um convite. Quem fica, quer levar adiante a história. “Deus confiou ao homem a gestão das criaturas.” (cf. Gn 1, 28).

Casos, como os supracitados, não são isolados. O Brasil contém nomes de municípios que poderiam figurar em um livro de história ou anedotário. Vejamos: Não Me Toque, Espumoso e Arroio dos Ratos (RS), Espera Feliz, Três Corações, Ponto Chique e Passa Tempo (MG), Fartura e Bofete (SP), Vai-Vem, Quijingue e Cacha-Pregos (BA), Chã de Alegria, Surubim e Solidão (PE), Puxinanã, Baía da Traição e Casserengue (PB), Coité do Noia, Porto Calvo e Boca da Mata (AL), Pau dos Ferros, [São Miguel do] Gostoso, Pureza, Encanto e Venha Ver (RN), dentre tantos. Tais nomes, longe de meras curiosidades, revelam a relação entre o homem, a língua e a terra. Nasceram de situações prosaicas, como uma fazenda, anedota, lenda, um rio, uma devoção religiosa... Entretanto, ao serem fixados como topônimos, ganham uma carga simbólica, fazendo da linguagem popular uma história oficial. “E o homem deu nome às coisas.” (Gn 2, 20).

O geógrafo Milton Santos dizia que o território é também um “sistema de significados”. Varre-Sai e Passa e Fica são mais que palavras no mapa. Tornam-se relatos condensados, pedaços da memória oral, transformados em geografia e registro histórico. Há quem veja nesses termos apenas exotismo ou folclore. No entanto, revelam sabedoria diante da vida. Espera Feliz, por exemplo, parece um conselho. Não Me Toque, um aviso que, segundo alguns, teria origem numa briga entre vizinhos. Passa e Fica e Varre-Sai lembram a vida interiorana, testemunha de idas e vindas, ventos e estradas, gente que passa, deixando um traço e lugares varrendo a poeira do tempo, mas preservando a memória.

Há um número razoável de nomes de origem popular, fruto da criatividade, oralidade e cultura sertaneja, dando ao Brasil um tom de crônica viva. Cada um deles é um pequeno conto. Varre-Sai fala do vento. Passa e Fica, da hospitalidade. Fartura, da esperança. Espera Feliz, do otimismo. Não Me Toque, da prudência etc. São expressões de uma imaginação coletiva, que transforma o cotidiano em história e poesia. Chorozinho (CE) lembra o choro dos índios, expulsos de suas terras. Trombudo (SC) vem de um rio sinuoso, como uma tromba. Nosso mapa é um mosaico onde humor, natureza e imaginação popular se misturam. “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos.” (Sl 19/18,1).


 
 
 

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