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Quem é o padre?

  • Foto do escritor: Aldemar Almeida
    Aldemar Almeida
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Por Monsenhor João Medeiros Filho


Aos sessenta e um anos de sacerdócio, ainda faço a indagação acima. Há inúmeras respostas. Para mim, a missão do padre consiste em ser pastor e mensageiro da misericórdia divina. Cabe-lhe ser operário da unidade e da paz, místico e até profeta. A figura do sacerdote sofreu mutações, ao longo da história. O cura de aldeia, que inspirou Bernanos, diverge do pároco de metrópole. A postura dos purpurados de outrora difere daquela do Cardeal Martini, que pedia aos fiéis de Milão para o chamarem simplesmente Irmão Carlos. Tais dissimilitudes demonstram uma compreensão do sacerdócio, que sofre influências das culturas e necessidades de seu tempo.


Pertenço à geração de presbíteros ordenados, logo após o Concílio Vaticano II. Fui formado no contexto teológico Bélgica-Holanda, onde havia nove peritos conciliares, liderados pelos Cardeais Suennes e Alfrink. O clero passou por mudanças internas e externas. Migrou do uso da batina para o “clergyman” ou trajes civis. “O hábito não faz o monge”, diz o brocardo. A questão reside quando indumentárias se sobrepõem à conduta e à vida. Importa haver constante disponibilidade para servir. “Nossas vestimentas devem testemunhar uma Igreja disposta à inclusão e não à divisão”, declarou São João XXIII. Com qualquer veste talar o princípio da autenticidade e coerência de vida deve ser um imperativo. O estético não deve ofuscar o ético.


Cabe ao ministro ordenado possuir discernimento acadêmico. Não se trata apenas de titulação, apesar de sua importância. Atualmente, enquanto leigos são detentores de pós-doutorado, muitos padres não possuem sequer graduação superior formal. Quando se fala de presbítero e meio acadêmico, refere-se ao que é genuíno desse ambiente: o diálogo e o debate. O sacerdote necessita ser preparado para analisar e lidar com os problemas do mundo, à luz do Evangelho. Não se trata de apologética ou proselitismo, mas abertura a valores existentes, fora do âmbito clerical. Torna-se indispensável uma sólida formação intelectual. Não raro, depara-se com padres opinando sobre temas e emitindo juízos desprovidos de argumentos convincentes e razoabilidade. Seu discurso pode atingir sentimentos, mas não penetra a consciência dos fiéis. Assim, o sacerdote precisa consolidar uma mentalidade acadêmica de intercâmbio e transdisciplinariedade. 


Outrossim, o presbítero deve ser místico. Afirmava o teólogo Karl Rahner: “Ou seremos místicos ou não seremos nada.” E isto consiste em configurar-se a Cristo para olhar o mundo com esperança e alegria. No afã equivocado de atingir esse ideal, há quem queira ser paladino de pastorais sentimentalistas ou laicizantes. Existem também arautos do radicalismo e da intransigência, como se fossem donos da graça divina. A verdadeira mística deriva da vivência do Evangelho, marcada de escuta e solidariedade. Jesus ouviu mais do que falou. Soube ouvir e perdoou muito. Cabe ao sacerdote ser pregoeiro de clemência e ternura, pastor e pontífice (cf. Carta aos Hebreus). Ao se dividir a comunidade, por razões sociopolíticas e partidárias, quebra-se o clima de unidade e paz, deixando de ser teologicamente pontífice (construtor de pontes), missão importante do sacerdócio ministerial. “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti” (Jo 17, 21).

O equilíbrio deve ser uma marca do presbítero (que em grego significa experiente). Segundo pesquisa realizada por um curso de Teologia no Brasil: “Os cristãos perdoam as fraquezas dos padres, mas desaprovam os apegados a dinheiro ou poder, os politiqueiros que contribuem para a desunião.” Aconselhava o Cardeal Suhard aos católicos parisienses: “O padre não é anjo, nem super-homem. Antes de condená-lo, reze por ele.” Convém lembrar as palavras de Cristo: “Fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto” (Jo 15, 16).

 
 
 

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